segunda-feira, 10 de maio de 2010

Eu




Eu sou a que no mundo anda perdida
EU sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada...a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida
E que o destino amargo, triste e forte
Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida
Sou aquela que passa e ninguém vê
Sou a quem chamam triste sem o ser
Sou talvez a visão que alguém sonhou
E que nunca na vida me encontrou!

(Florbela de Alma da Conceição Espanca)

Sermão do Mandato




O primeiro remédio que diziámos, é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera? São as afeiçoes como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino; por que não amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já nao atira; embotalhe as setas, com que já nao fere; abre-lhes os olhos, com que vê o que nao via. e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é por que o tempo tira a novidade das coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e bastam que sejam usadas para que não sejam mais as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.

(Padre Antonio Vieira)

Será que ele me viu?




Vê lá tu, meu amor, como foste te iludir!
Ah coitado de ti enganaste-te e enganaste-me com esperanças mentirosas.
Tantas esperanças nos dava o nosso amor, e causa-nos agora o mortal desespero que só pode comparar-se à crueldade desta separação.
Pois que! A Tua ausência, para que a minha dor não ache nome bastante triste, há privar-me para sempre de mirar nos teus olhos, onde eu via tanto amor, que me enchiam de alegria, que eram tudo para mim?
AI de mim! Os meus olhos perderam a luz que os alumiava e não fazem senão chorar.

(...)

(Sóros Mariana Alcoforado)

O Auto da Barca do Inferno

Ninguém
Que andas tu aí buscando?

Todo o mundo
Mil cousas ando a buscas:
delas não posso achar.
porém ando perfiando,
por quão bom é perfiar.

Ninguém

Como hás nome cavaleiro?

Todo o mundo
Eu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo.

Ninguém

E eu hei nome Ninguém.
e busco a consciência.

(Belzebu para Dinato)
Está é boa experiência!
Dinato, escreve isto bem.

Dinato

Que escreverei companheiro?

Belbezu

Que ninguém busca consciência,
E Todo o Mundo dinheiro.

(Ninguém para Todo o Mundo)
E agora que buscas lá?

Todo o Mundo
Busco honra muito grande

Ninguém

E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.

(Belbezu para Dinato)
Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Nnguém busca virtude.

Ninguém
Buscas outro mor bem qu'êsse?

Todo o Mundo
Busco mais quem me louvasse
Tudo quanto eu fizesse.

Ninguém
E eu quem me repreendesse
Em cada cousa que errasse.

(Belzebu para Dinato)

Escreve mais

Dinato
Que tens sabido?

Belzebu
Que quer em extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
E Ninguém ser repreendido.

(Gil Vicente)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

Adeus, meus sonhos!




Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!



(ALVARÉS DE AZEVEDO)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Versos Intimos




Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(Augusto dos Anjos)